Estudos Junguianos

#A Mulher e a Bruxa interior - Conto: Vasalisa, a Sabida

11:40


Era uma vez, e não era uma vez, uma jovem mãe que jazia no seu leito de morte, com o rosto pálido como as rosas brancas de cera na sacristia da igreja dali de perto. Sua filhinha e seu marido estavam sentados aos pés da sua velha cama de madeira e oravam para que Deus a conduzisse em segurança até o outro mundo.

A mãe moribunda chamou Vasalisa, e a criança de botas vermelhas e avental branco ajoelhou-se ao lado da mãe.

— Essa boneca é para você, meu amor — sussurrou a mãe, e da coberta felpuda ela tirou uma bonequinha minúscula que, como a própria Vasalisa, usava botas vermelhas, avental branco, saia preta e colete todo bordado com linha colorida.

— Estas são as minhas últimas palavras, querida — disse a mãe. — Se você se perder ou precisar de ajuda, pergunte à boneca o que fazer. Você receberá ajuda. Guarde sempre a boneca. Não fale a ninguém sobre ela. Dê-lhe de comer quando ela estiver com fome. Essa é a minha promessa de mãe para você, minha bênção, querida. — E, com essas palavras, a respiração da mãe mergulhou nas profundezas do seu corpo, onde recolheu sua alma, e saiu correndo pelo lábios; e a mãe morreu.

A criança e o pai choraram sua morte muito tempo. No entanto, como o campo arrasado pela guerra, a vida do pai voltou a verdejar por entre os sulcos e ele desposou uma viúva com duas filhas. Embora a nova madrasta e suas filhas fossem gentis e sorrissem como damas, havia algo de corrosivo por trás dos sorrisos que o pai de Vasalisa não percebia.

Realmente, quando as três estavam sozinhas com Vasalisa, elas a atormentavam, forçavam-na a lhes servir de criada, mandavam-na cortar lenha para que sua pele delicada se ferisse. Elas a detestavam porque Vasalisa tinha uma doçura que não parecia deste mundo. Ela era também muito bonita. Seus seios eram fartos, enquanto os delas definhavam de maldade. Ela era solícita e não se queixava, enquanto a madrasta e as duas filhas eram, entre si mesmas, como ratos no monte de lixo à noite.

Um dia a madrasta e suas filhas simplesmente não conseguiam mais aguentar Vasalisa.

— Vamos… combinar de deixar o fogo se apagar e, então, vamos mandar Vasalisa entrar na floresta para ir pedir fogo para nossa lareira a Baba Yaga, a bruxa. E, quando ela chegar até Baba Yaga, bem, a velha irá matá-la e comê-la. — As três bateram palmas e guincharam como animais que vivem na escuridão.

Por isso, naquela noite, quando Vasalisa voltou para casa depois de catar lenha, a casa estava completamente às escuras. Ela ficou muito preocupada e falou com a madrasta.

— O que aconteceu? Como vamos fazer para cozinhar? O que vamos fazer para iluminar as trevas?

— Sua imbecil — reclamou a madrasta. — É claro que não temos fogo. E eu não posso sair para o bosque devido à minha idade. Minhas filhas não podem ir porque têm medo. Você é a única que tem condições de sair floresta adentro para encontrar Baba Yaga e conseguir dela uma brasa para acender nosso fogo de novo.

— Ora, está bem — respondeu Vasalisa inocente. — É o que vou fazer. — E foi mesmo. A floresta ia ficando cada vez mais escura, e os gravetos estalavam sob seus pés, deixando-a assustada. Ela enfiou a mão bem fundo no bolso do avental e ali estava a boneca que a mãe ao morrer lhe havia dado.

— Só de tocar nessa boneca, já me sinto melhor — disse Vasalisa, acariciando a boneca no bolso.

A cada bifurcação da estrada, Vasalisa enfiava a mão no bolso e consultava a boneca. “Bem, eu devo ir para a esquerda ou para direita?” A boneca respondia “Sim”, “Não”, “Para esse lado” ou “Para aquele lado”. E Vasalisa dava à boneca um pouco de pão enquanto ia caminhando, seguindo o que sentia estar emanando da boneca.

De repente, um homem de branco num cavalo branco passou galopando, e o dia nasceu. Mais adiante, um homem de vermelho passou montado num cavalo vermelho, e o sol apareceu. Vasalisa caminhou e caminhou e, bem na hora em que estava chegando ao casebre de Baba Yaga, um cavaleiro vestido de negro passou trotando e entrou direto no casebre. Imediatamente fez-se noite. A cerca feita de caveiras e ossos ao redor da choupana começou a refulgir com um fogo interno de tal forma que a clareira ali na floresta ficou iluminada com uma luz espectral.

Ora, Baba Yaga era uma criatura muito temível. Ela viajava, não num coche, nem numa carruagem, mas num caldeirão com o formato de um graal que voava sozinho. Ela remava esse veículo com um remo que parecia um pilão e o tempo todo varria o rastro por onde passava com uma vassoura feita do cabelo de alguém morto há muito tempo.

E o caldeirão veio voando pelo céu, com o próprio cabelo sebento de Baba Yaga na esteira. Seu queixo comprido curvado para cima e seu longo nariz era curvado para baixo de modo que os dois se encontravam a meio caminho. Baba Yaga tinha um ínfimo cavanhaque branco e verrugas na pele adquiridas de seus contatos com sapos. Suas unhas manchadas de marrom eram grossas e estriadas como telhados, e tão compridas e recurvas que ela não conseguia fechar a mão.

Ainda mais estranha era a casa de Baba Yaga. Ela ficava em cima de enormes pernas de galinha, amarelas e escamosas, e andava de um lado para o outro sozinha. Ela às vezes girava e girava como uma bailarina em transe. As cavilhas nas portas e janelas eram feitas de dedos humanos, das mãos e dos pés e a tranca da porta da frente era um focinho com muitos dentes pontiagudos.

Vasalisa consultou sua boneca. “É essa casa que procuramos?” E a boneca, a seu modo, respondeu: “É, é essa a que procuramos.” E antes que ela pudesse dar mais um passo. Baba Yaga no seu caldeirão desceu sobre Vasalisa, aos gritos.

— O que você quer?

— Vovó, vim apanhar fogo — respondeu a menina, estremecendo. — Está frio na minha casa… o meu pessoal vai morrer… preciso de fogo.

— Ah, sssssei — retrucou Baba Yaga, rabugenta. — Conheço você e o seu pessoal. Bem, criança inútil… você deixou o fogo se apagar. O que é muita imprudência. Além do mais, o que a fez pensar que eu lhe daria a chama?

— Porque eu estou pedindo — respondeu rápido Vasalisa depois de consultar a boneca.

— Você tem sorte — ronronou Baba Yaga. — Essa é a resposta certa.

E Vasalisa se sentiu com muita sorte por ter acertado a resposta. Baba Yaga, porém, a ameaçou.

— Não há a menor possibilidade de eu lhe dar o fogo antes de você fazer algum trabalho para mim. Se você realizar essas tarefas para mim, receberá o fogo. Se não…

— E nesse ponto Vasalisa viu que os olhos de Baba Yaga de repente se transformavam em brasas. — Se não, minha filha, você morrerá.

E assim Baba Yaga entrou pesadamente no casebre, deitou-se na cama e mandou que Vasalisa lhe trouxesse a comida que estava no forno. No forno havia comida suficiente para dez pessoas, e a Yaga comeu tudo, deixando uma pequena migalha e um dedal de sopa para Vasalisa.

— Lave minha roupa, varra a casa e o quintal, prepare minha comida, separe o milho mofado do milho bom e certifique-se de que tudo está em ordem. Volto mais tarde para inspecionar seu trabalho. Se tudo não estiver pronto, você será meu banquete.

E com isso a Baba Yaga partiu voando no seu caldeirão com o nariz lhe servindo de biruta e o cabelo, de vela. E anoiteceu novamente.

Vasalisa voltou-se para a boneca assim que a Yaga se foi.

— O que vou fazer? Vou conseguir cumprir as tarefas a tempo?

A boneca disse que sim e recomendou que ela comesse algo e fosse dormir. Vasalisa deu algo de comer à boneca também e adormeceu.

Pela manhã, a boneca havia feito todo o trabalho, e só faltava preparar a refeição. À noite, a Yaga voltou e não encontrou nada por fazer. Satisfeita, de certo modo, mas irritada por não conseguir encontrar nenhuma falha, Baba Yaga zombou de Vasalisa.

— Você é uma menina de sorte.

Ela, então, convocou seus fiéis criados para moer o milho, e três pares de mãos apareceram em pleno ar e começaram a raspar e esmagar o milho. Os resíduos pairavam no ar como uma neve dourada. Finalmente, o serviço terminou, e Baba Yaga se sentou para comer. Comeu horas a fio e deu ordens a Vasalisa para que no dia seguinte limpasse a casa, varresse o quintal e lavasse a roupa.

— Naquele monte de estrume — disse a Yaga, apontando para um enorme monte de estrume no quintal — há muitas sementes de papoula, milhões de sementes de papoula. Amanhã quero encontrar um monte de sementes de papoula e um monte de estrume, completamente separados um do outro. Compreendeu?

— Meu Deus, como vou fazer isso? — exclamou Vasalisa, quase desmaiando.

— Não se preocupe, eu me encarrego — sussurrou a boneca, quando a menina enfiou a mão no bolso.

Naquela noite, Baba Yaga adormeceu roncando, e Vasalisa tentou… catar… as… sementes de papoula… do… meio… do… estrume.

— Durma agora — disse-lhe a boneca, depois de algum tempo. — Tudo vai dar certo.

Mais uma vez, a boneca executou todas as tarefas e, quando a velha voltou, tudo estava pronto.

— Ora, ora! Que sorte a sua de conseguir acabar tudo! — disse Baba Yaga, falando sarcástica pelo nariz. Ela chamou seus fiéis criados para prensar o óleo das sementes, e novamente três pares de mãos apareceram e cumpriram a tarefa.

Enquanto a Yaga estava besuntando os lábios na gordura do cozido, Vasalisa ficou parada por perto.

— E aí, o que é que você está olhando? — perguntou Baba Yaga, de mau humor.

— Posso lhe fazer umas perguntas, vovó? — perguntou Vasalisa.

— Pergunte — ordenou a Yaga —, mas lembre-se, saber demais envelhece as pessoas antes do tempo.

Vasalisa perguntou quem era o homem de branco no cavalo branco.

— Ah — respondeu a Yaga, com carinho. 
— Esse primeiro é o meu Dia.

— E o homem de vermelho no cavalo vermelho? 

— Ah, esse é o meu Sol Nascente.

— E o homem de negro no cavalo negro?

— Ah, sim, esse é o terceiro e ele é a minha Noite.

— Entendi — disse Vasalisa.

— Vamos, vamos, minha criança. Não quer me fazer mais perguntas? — sugeriu a Yaga, manhosa.

Vasalisa estava a ponto de perguntar sobre os pares de mãos que apareciam e desapareciam, mas a boneca começou a saltar dentro do bolso e, em vez disso, Vasalisa respondeu.

— Não, vovó. Como a senhora mesma diz, saber demais pode envelhecer a pessoa antes da hora.

— É — disse a Yaga, inclinando a cabeça como um passarinho —, você é muito ajuizada para a sua idade, menina. Como conseguiu isso?

— Foi a bênção da minha mãe — disse Vasalisa, com um sorriso.

— Bênção!? — guinchou Baba Yaga. — Bênção?! Não precisamos de bênção nenhuma aqui nesta casa. É melhor você procurar seu caminho, filha. — E foi empurrando Vasalisa para o lado de fora. — Vou lhe dizer uma coisa, menina. Olhe aqui! — Baba Yaga tirou uma caveira de olhos candentes da cerca e a enfiou numa vara. — Pronto! Leve esta caveira na vara até sua casa. Isso! Esse é o seu fogo. Não diga mais uma palavra sequer. Só vá embora.

Vasalisa ia agradecer à Yaga, mas a bonequinha no fundo do bolso começou a saltar para cima e para baixo, e Vasalisa percebeu que devia só apanhar o fogo e ir embora. Ela voltou correndo para casa, seguindo as curvas e voltas da estrada com a boneca lhe indicando o caminho. Era noite, e Vasalisa atravessou a floresta com a caveira numa vara, com o brilho do fogo saindo pelos buracos dos ouvidos, dos olhos, do nariz e da boca. De repente, ela sentiu medo dessa luz espectral e pensou em jogá-la fora, mas a caveira falou com ela, insistindo para que se acalmasse e prosseguisse para a casa da madrasta e das filhas.

Quando Vasalisa ia se aproximando da casa, a madrasta e suas filhas olharam pela janela e viram uma luz estranha que vinha dançando pela mata. Cada vez chegava mais perto. Elas não podiam imaginar o que aquilo seria. Já haviam concluído que a longa ausência de Vasalisa indicava que ela a essa altura estava morta, que seus ossos haviam sido carregados por animais, e que bom que ela havia desaparecido!

Vasalisa chegava cada vez mais perto de casa. E quando a madrasta e suas filhas viram que era ela, correram na sua direção dizendo que estavam sem fogo desde que ela havia saído e que, por mais que tentassem acender um, ele sempre se extinguia.

Vasalisa entrou na casa, sentindo-se vitoriosa por ter sobrevivido à sua perigosa jornada e por ter trazido o fogo para casa. No entanto, a caveira na vara ficou observando cada movimento da madrasta e das duas filhas, queimando-as por dentro. Antes de amanhecer, ela havia reduzido a cinzas aquele trio perverso.

Interpretação:

Vasalisa é a história da iniciação da Mulher. Ser iniciada significa que a Mulher recorre a sua intuição e aos seus instintos para farejar a verdade de tudo, que se utiliza dos seus sentidos para ver o que há de ser visto, para conhecer o que precisa ser conhecido, e para guardar seu fogo criativo, assim como para ter a compreensão dos ciclos da vida. Ela sabe quando algo precisa morrer e quando alguma coisa vai nascer. Resumidamente essa história, ou conto, como preferir, mostra os passos para acessar o poder instintivo básico da Mulher: a Intuição. 

A análise Junguiana do conto está baseada no livro: Mulheres que correm com os Lobos de Clarissa Èstes. 

A história é a transmissão da bênção do poder da intuição das mulheres de mãe para filha, de uma geração à outra. O poder da intuição faz com que percebamos as coisas como um raio e é composta de visão interior, audição interior, percepção interior e conhecimento interior.

Esse poder intuitivo foi enterrado nas mulheres por gerações a fio, mas segundo Jung nada jamais se perde na psique, portanto tudo que estiver encoberto poderá voltar a ser exposto.

Para a compreensão do conto vamos considerar que todos os personagens representam a psique de uma única mulher. O processo de iniciação é representado pelo cumprimento de certas tarefas, nesse caso foram nove (9). Com o cumprimento de todas a Intuição é reinstalada na Mulher. Vamos a análise das tarefas.


Primeira Tarefa: Permitir a morte da mãe-boa-demais

A primeira tarefa pede que deixemos morrer em nós aquela parte da psique que parecia nos proteger de tudo, que era boa demais, talvez ingênua demais para enxergar a próxima fase. Devemos permitir a saída daquele lugar em nós que tinha medo do mundo lá fora, que precisava de uma proteção. É tempo de ir para o mundo e acreditar que vai conseguir se cuidar sozinha. Se realizamos isso por consciência será mais fácil, se não for assim, o processo vai acontecer da mesma forma, mas nos empurrando para fora, e com dor. 

O que não sabemos é que essa parte nossa boa demais, nossa mãe boa demais, não é exatamente o que pensamos que ela fosse. Por trás dessa protetora tem uma Mãe Selvagem que se esconde e no conto é simbolizada pela boneca dada a filha, antes de morrer. 

O primeiro momento onde essa mudança acontece é no início da adolescência. E meninas que passaram por problemas psicológicos no início da vida, quando a mãe não foi suficientemente boa ou presente, infelizmente farão apenas parte dessa transição e ficarão vagueando anos a fio na busca de completar seu processo, perdidas por aqui e por ali. Também pode não acontecer corretamente com as meninas em que as mães são como ervas daninhas superprotegendo suas filhas. Essas meninas se tornam tímidas para entrar na grande mata da vida sozinhas. Ou seja, é necessário para o desenvolvimento adequado da Intuição que tenha havido uma mãe protetora na infância até a adolescência. Uma retomada da investigação de si mesma irá restabelecer a intuição profunda. 

A iniciação de Vasalisa começa quando ela aprende a deixar morrer o que precisa morrer: os valores e atitudes que não mais a sustentam, aquelas dogmas que deixam a vida segura, que nos superprotegem. Nos dias atuais podem ser nossas posições e crenças políticas, religiosas, em determinadas instituições, nas pessoas e crenças que nos foi informada quando ainda éramos infantis e que de certa forma nos protegeram, mas que não precisam existir nessa nova etapa, onde o cuidado precisa ser realizado por nós mesmas. Uma forma de aguçar os poderes intuitivos é a mulher fixar um objetivo para si e se dispor a alcançar, correndo os riscos.

Uma mãe deve ajudar seu filho a sair da barra de sua saia, mostrando os dentes, assim como a mãe loba que é superprotetora e terna quando seus filhotes são bebês, mostra-lhes os dentes quando os ensina caçar, a procurar alimentos, mostrando que precisam conseguir e não podem desistir. 

A mãe-boa-demais nos impede que as energias intensas venham à tona, mantém sim seu filho no mundo seguro, mas também o transforma num ser medroso. 

Essa mãe-boa-demais não precisa morrer apenas uma vez na vida. Constantemente vivemos situações que precisam morrer inteiras ou apenas partes, para que a intuição nos pertença. Algumas vezes deixar uma relação ou trabalho que não nos desenvolve mais, apesar de dolorido, pode ser um brilhante portal que dará acesso a esse grande poder. 

Algo que precisa ficar muito claro, se ficarmos muito tempo fundidos com a mãe-boa-demais, nossa vida e nossos talentos expressivos recuam para a sombra, e definhamos ao invés de nos fortalecermos. E mais, não espere estar pronta para deixar esse lugar de aconchego. Nunca se está. Precisamos caminhar na incerteza e até com medo em direção ao desconhecido. Precisamos mergulhar e ficar sem saber o que vem depois. Essa é a única atitude que recupera a natureza instintiva. Largar a teta e aprender a caçar. Há uma mãe selvagem que aguarda. 


Segunda Tarefa: Denunciar a natureza sombria

Nessa fase é que a família e a madrasta má entram na vida de Vasalisa. E as tarefas desse período são: aprender ainda com mais conscientização a largar a mãe positiva. Descobrir que ser boazinha, simpática, gentil não fará a vida florir. Deve-se vivenciar a própria natureza sombria - seu próprio ciúmes, inveja, aspectos exploradores e rejeitadores do Self (a madrasta e suas filhas). Incorporar esses aspectos. Criar o melhor relacionamento possível com as piores partes de si mesma. Deixar acumular a tensão entre quem se aprendeu a ser e quem se é realmente. Enfim, focar bastante em deixar morrer o velho self, para que nasça o self intuitvo. 

A madrasta e suas filhas são aspectos perversos da psique, são elementos sombrios, são os aspectos que o ego rejeita, portanto vão parar na sombra. Só que ao impedir aspectos negativos da sombra, também se impede talentos da mulher que também foram empurrados para as trevas. E permitir o reconhecimento do material negativo é positivo no sentido de que podemos identificá-los, saber as fontes e isso nos torna mais fortes e cada vez mais inteiras. 

A madrasta e as filhas são um obstáculo perverso na vida de Vasalisa, mas só porque ela ainda não tem consciência plena do seu poder. E para que ela perceba isso, algo revigorante precisa acontecer. A madrasta que existe em nós insiste em nos dizer que não valemos muito, se concentra em nos mostrar nossas falhas, não percebendo a crueldade que está fazendo conosco. Mas isso é revigorante, pois para perceber o que se está oculto é exigido foco, atenção, concentração e a intuição vai aflorando.

Podemos ter sido ensinadas a ser gentis ao invés de espertas, a deixar o insight de lado para não criarmos problemas. Contudo quanto mais somos boazinhas, em situações repressoras, mais somos maltratadas. Embora a mulher sinta que, se for ela mesma, estará se afastando dos outros, é exatamente essa tensão psíquica que é necessária para criar alma e promover mudanças.

Mulheres que ficam tentando provar seu valor para a madrasta má, as megeras enciumadas, na realidade acabam impedindo sua iniciação. Vasalisa realiza os serviços domésticos e aguenta sua rotina sem se queixar, mas a pressão dentro de si para ser dona do próprio destino aumenta mais e ela precisa dar os seguintes passos. Ela precisa ir ao encontro da Grande Megera Selvagem porque ela precisa de um bom susto. Ela não pode continuar servindo de saco de pancadas para todos. As mulheres que tentam tornar invisíveis seus sentimentos mais profundos estão se entorpecendo. A luz se extingue. Mas também pode ser ver a chama se acabar que dê o susto necessário e faça com que a mulher prossiga no caminho, orientada por seus conhecimentos interiores.


Terceira Tarefa: Navegar nas trevas

Nessa fase as tarefas psíquicas são: consentir em penetrar na floresta (o lugar de iniciação profunda), e começar a experimentar o sentimento numinoso e aparentemente perigoso de estar imersa no poder intuitivo. Aprender a ser sensível ao que o inconsciente aponta e confiar no que os próprios sentidos interiores dizem. Aprender o caminho de volta para a casa da Mãe Selvagem (obedecendo a boneca). Aprender a nutrir a intuição (alimentar a boneca). Deixar que a mocinha frágil e ingênua morra ainda mais. Transferir o poder para a boneca, ou seja, para a intuição. 

A boneca de Vasalisa pertence às provisões da velha Mãe Selvagem. A boneca representa a força da vida instintiva que tanto é feroz quanto resistente. Não importa o problema que estamos enfrentando, ela leva uma vida oculta dentro de nós.

A boneca representa o espírito interior das mulheres: a voz da razão, do conhecimento e da conscientização íntima. Ela é como o passarinho dos contos de fadas que vem sussurrar no ouvido da heroína. Ele é quem revela o inimigo oculto e a atitude certa a tomar diante da situação. 

Não há bênção maior que uma mãe pode dar a sua filha do que uma confiança na veracidade da sua própria intuição. A intuição é a verdadeira voz da alma, ela prevê a direção mais benéfica a seguir, capta os motivos e intenções subjacentes e opta pelo que irá provocar o mínimo de fragmentação na psique. A intuição muda a diretriz da mulher de uma atitude de “o que será, será” para uma de “quero ver tudo que há para ser visto”. 

O que a intuição selvagem faz pelas mulheres? A mulher assume uma consciência animal astuta e mesmo premonitória, que aprofunda sua feminilidade e aguça sua capacidade de se movimentar com confiança no mundo exterior. 

Vasalisa nessa fase está no escuro, na mata e não pode fazer mais nada a não ser prestar atenção à voz interior que provém da boneca. Ela está aprendendo a confiar nesse relacionamento, e também a alimentar a boneca.

Como alimentamos a boneca no nosso dia a dia? Ela se alimenta de vida quando nós prestamos atenção à ela. Nutrimos nosso self intuitivo quando prestamos atenção à ele e agimos de acordo com sua orientação. A intuição é como um músculo, se não a usamos, ela atrofia. 

Algumas perguntas que só a intuição pode responder corretamente: “Devo ir para esse lado ou para outro?” “Devo ficar ou partir?” Devo resistir ou ser flexível?” “Devo fugir disso ou ir na sua direção?” “Essa pessoa, esse acontecimento, essa empreitada, é verdadeira ou falsa?”

Quando a intuição parece nunca ter existido na mulher, que ela não pense que ela está destruída. Apenas não foi transmitida a confiança intuitiva de mãe para filha. Ou a transmissão em consequência de algum rompimento nesse processo foi fraca. Mas com exercício ela poderá se restaurar e se manifestar em sua plenitude. 


Quarta Tarefa: Encarar a Megera Selvagem

Nessa fase Vasalisa encontra a Megera Selvagem pessoalmente. As tarefas desse encontro são: ser capaz de suportar o rosto apavorante da Deusa Selvagem sem hesitar (encarar o que conseguir enxergar da verdade e suportar). Residir por um tempo na estranheza, no mistério (na casa da Baba Yaga). Adotar alguns dos seus valores, tornando-nas também um pouco estranhas. Aprender a encarar um poder enorme nos outros e subsequentemente nosso próprio poder. Permitir que a criança frágil e boazinha vá definhando ainda mais. 

Uma mulher pacata quando entra na casa da Baba Yaga precisa deixar sua menina, a boazinha, a certinha, a medrosa, a tímida e dançar como uma galinha maluca rodopiando de vez em quando. Sair do padrão. Sentir-se livre. O “excesso de normalidade” que na psicologia se chama personalidade normal nivelada, vai contaminando até que tenhamos uma vida rotineira e sem vida, sem que fosse essa a pretensão. Essa normalidade excessiva produz a falta de luz na psique. Por isso precisamos sair um dia mata adentro, procurando a mulher apavorante que mora dentro de nós, caso contrário chegará o dia em que seremos agarradas por algum ser inconsciente que nos jogará de um lado para outro como um trapo.

Baba Yaga é assustadora por ser ela própria o poder da aniquilação e o poder da força da vida ao mesmo tempo. Vasalisa está parada ali e aceita a divindade da mãe selvagem, com verrugas e tudo o mais. 

Baba Yaga embora faça ameaças, não fere Vasalisa enquanto ela demonstra respeito por ela, ela é justa. A atitude de respeito diante de um poder extremo é uma lição fundamental. A mulher precisa ser capaz de se manter diante do poder, porque em última análise alguma parte desse poder passará às suas mãos (trabalho de respeito que devemos manter pelos Complexos). Vasalisa não se apresenta a Baba Yaga se escondendo, mentindo, mas com honestidade, exatamente como ela é. É importante perceber que não se apresenta diante de um complexo com arrogância, e apesar de se posicionar com respeito, não se chega perto de ser submissão. É respeito, não medo. 

Nesse conto de Iniciação Baba Yaga é a mulher selvagem sob o disfarce de bruxa. A ogra, a bruxa, a natureza selvagem e quaisquer outras criaturas que a cultura considera apavorante nas psiques das mulheres são exatamente as bênçãos que elas mais precisam resgatar e trazer à superfície. 

Boa parte da literatura sobre o tema do poder das mulheres afirma que os homens têm medo desse poder. Se a mulher quer um dia que os homens venham a aprender a suportar esse poder das mulheres, sem sombra de dúvidas são as mulheres que primeiro precisam aprender a suportá-lo. 


Quinta Tarefa: Servir o não-racional

As tarefas psíquicas desse período são: ficar com a deusa Megera, aclimatar-se às imensas forças selvagens da psique feminina. Reconhecer o poder dela (o seu poder) e os poderes das purificações interiores; limpar, escolher, alimentar, criar energia e ideias (lavar as roupas da Yaga, cozinhar para ela, limpar sua casa e separar os elementos). 

No conto Yaga ensina Vasalisa como cuidar da casa psíquica do feminino selvagem. Lavar as roupas dela é um símbolo lendário. É um símbolo da limpeza e da purificação de toda a imagem da psique. Na mitologia, tecido é fruto do trabalho das mães da vida-morte-vida. Yaga encarrega Vasalisa de lavar sua roupa para que esse tecido, esses padrões da deusa da vida-morte-vida, venham à tona, à consciência. Ao lavá-lo, ela se modifica.

Lavar também simboliza, assim como no batismo impregnar a pessoa com uma força numinosa.

No conto lavar é repor em boas condições aquilo que perdeu a forma com o desgaste. 

Na psicologia Junguiana, os trajes representam a persona, uma camuflagem que permite que os outros só conheçam de nós aquilo que queremos. Mas a persona também é uma máscara por trás da qual a pessoa encobre a personalidade rotineira. Nesse sentido a persona é um indicador de hierarquia, virtude, caráter e autoridade. É o significante exterior, a manifestação exterior de comando. 

Ao purificar suas personas, o manto da autoridade, a iniciada Vasalisa verá como são feitas as costuras de seus próprios trajes. Logo ela terá um pouco dessas personas, que no caso dos trajes da Yaga são força e resistência.

A próxima tarefa, de varrer, nos ensina que precisamos manter nosso ambiente psíquico limpo de resíduos, organizado. A mulher consegue isso mantendo a cabeça limpa, o local de trabalho organizado para se dedicar a completar suas ideias e projetos. Não é suficiente se dedicar a varrer uma vez ao mês ou ao ano. Mas como falamos no varrer a casa da Yaga, estamos sugerindo que se organize constantemente as ideias incomuns, o místico, o amedrontador, ou esse espaço em nós que vai sendo esquecido acaba se transformando numa ruína arqueológica na psique. 

Agora é a vez de cozinhar para a bruxa. E para começar se acende o fogo. A mulher precisa estar disposta a arder, arder de paixão, arder com as palavras, com as ideias, com o desejo. Essa paixão que provoca o cozimento e as ideias significativas da mulher são o alimento que é preparado. Infelizmente muitas vezes na vida voltamos às costas para as panelas, ao fogão, esquecemos de acrescentar lenha, de mexer. O fogo exige atenção porque é fácil deixar que se apague. A Yaga precisa ser alimentada. E vai haver um barulho infernal, em nós, se ela sentir fome. 

Portanto é o cozimento de novas ideias, novos rumos, da dedicação à nossa arte e ao nosso trabalho que alimenta a alma selvagem permanentemente, que nutre a Selvagem e sustenta a nossa psique. Sem o fogo, tudo continua em nós, crus, e ficamos frustrados. E a mãe Selvagem exige muito alimento para realizar o trabalho intuitivo em nós. Ela não se alimenta de alface a café preto. 

Os ciclos das mulheres são: limpar o pensamento, eliminar as insignificâncias, varrê-las, purificar o estado de pensamento e sentimento regularmente, acender a fogueira criativa e cozinhar as ideias num ritmo sistemático e especialmente cozinhar muito, para manter um relacionamento entre nós mesmas e a natureza selvagem.

Vasalisa pelo tempo que passa com Yaga acaba incorporando algo do jeito e do estilo dela. E nós também.


Sexta Tarefa: Separar isso daquilo

Nessa fase as tarefas exigidas são mais difíceis: aprender a separar meticulosamente, a separar as coisas umas das outras com o melhor discernimento, aprender a fazer distinções sutis (ao escolher o milho mofado do milho são e ao selecionar as sementes de papoula de um monte de estrume). Observar o poder do inconsciente (os pares de mãos que aparecem no ar). Aprender mais sobre a vida (o milho) e a morte (as sementes de papoula).

A separação foi realizada pela intuição da boneca. Às vezes esse processo acontece num nível tão profundo que nem tomamos consciência. 

A separação de que fala essa história é daquela que precisamos na nossa rotina quando nos deparamos com uma pergunta ou dilema, mas as ideias não chegam. Se a deixamos em paz, se vamos dormir então a velha em nós de milhões de anos chega para nos visitar e traz a solução. 

O milho, o milho mofado, a semente de papoula e o estrume são todos remanescentes de uma antiga farmácia medicinal. Como metáfora aqui, eles são os remédios para a mente, são uma orientação simbólica. Ao separar coisas de natureza semelhante aprendemos a ser mais sutis e quando precisarmos diferenciar o amor verdadeiro do falso, ou a vida revigorante da vida desperdiçada, saberemos qual é. 

Todas essas tarefas estão transmitindo a Vasalisa ensinamentos sobre os ciclos. Podemos colocar energia no que vai nascer, sem atrapalhar o que precisa morrer. Cuidar de um jardim pode ser um excelente exercício para este aprendizado. 


Sétima Tarefa: Perguntar sobre os mistérios

Esse estágio pede perguntas: perguntar e tentar aprender mais a respeito da natureza da vida-morte-vida e de seu funcionamento. Aprender a verdade acerca da capacidade de compreender todos os elementos da natureza selvagem (saber demais pode envelhecer a pessoa antes do tempo).

Há uma quantidade determinada de coisas que todos deveríamos saber em cada idade e cada estágio de nossas vidas. Na história conhecer o significado das mãos que aparecem e espremem o óleo de milho e da semente de papoula, é querer saber demais. Vasalisa faz perguntas sobre os cavalos, mas não sobre as mãos. Vasalisa sabe quando é hora de parar de fazer perguntas. Tentar compreender algumas coisas é como tentar entender o âmago do numinoso. Precisamos nos prevenir de invocar em excesso a força numinosa. E isso é correto porque, embora visitemos o além, não queremos ficar extasiadas, e portanto, presas por lá. Não é preciso forçar nada, a compreensão virá. 

Com o término das tarefas, o legado as mães selvagens é aprofundado, e poderes intuitivos emanam tanto do lado humano quanto do lado espiritual da psique. Agora temos como mestres a boneca de um lado e a Yaga do outro.


Oitava Tarefa: De pé nas quatro patas

As tarefas desta parte da história são as seguintes: assumir um poder imenso de ver e afetar os outros (o recebimento da caveira). Ver as situações da própria vida com essa nova luz (descobrir o caminho de volta à família da madrasta).

Quando a mulher integra esse aspecto da Yaga, ela deixa de aceitar sem questionamento cada sugestão, cada farpa, qualquer coisa que lhe apareça pela frente. Para conquistar um distanciamento mínimo da carinhosa bênção da mãe-boa-demais, a mulher aos poucos vai aprender não só a olhar, mas a fixar os olhos e vigiar com atenção, e cada vez mais a não ter paciência com gente enfadonha. Tendo criado, através de sua experiência de servir à Yaga, uma capacidade interior que antes não possuía, Vasalisa recebe uma parte do poder selvagem da Deusa Megera. Algumas mulheres sentem medo que esse poder as torne desmioladas. Mas o que acontece é o contrário. A falta de intuição, a falta de sensibilidade para com os ciclos ou a negação a seguir o próprio conhecimento dão origem a escolhas que acabam se revelando infelizes e até desastrosas.

Com a psique instintiva da Yaga a mulher deve obedecer sua intuição. Se ela disser “Cuidado”, a mulher deve prestar atenção. Se disser “Faça isso, faça aquilo, vá por esse lado, pare aqui, siga em frente”, a mulher deve corrigir seus planos conforme seja apontado.

A caveira simboliza o conhecimento especial e atemporal depositado nos próprios ossos. Portanto ao receber a caveira acesa Vasalisa está ganhando uma sabedoria ancestral.

Nesta fase Vasalisa volta para casa com maior segurança, maior certeza, com a postura ereta, voltada para a frente. Essa é a subida a partir da iniciação da intuição profunda. 

Vasalisa agora conseguiu transpor as trevas ao ouvir a própria voz interior e foi capaz de suportar o rosto da Megera, que é um aspecto de sua própria natureza, mas também da poderosa natureza da Mulher Selvagem. Praticamente acaba-se o medo de enfrentar o que precisa ser enfrentado. 


Nona Tarefa: Reformular a Sombra

São as seguintes tarefas para este estágio: Usar a própria visão aguçada (olhos incandescentes) para reconhecer a sombra negativa da nossa própria psique e/ou os aspectos negativos das pessoas e acontecimentos do mundo exterior bem como para reagir a eles. Reformular as sombras negativas da própria psique com o fogo-da-megera (a perversa família da madrasta, que anteriormente torturava Vasalisa agora é reduzida a cinzas).

Vasalisa que era uma tolinha de olhos vidrados, é agora, trazendo a caveira incandescente à sua frente, uma mulher que anda com a força à sua frente. A caveira é uma representação da intuição, com a chama do conhecimento. Ela é a dona do seu próprio Self.

Vasalisa em algum momento sente medo desse poder, não é de surpreender que ocorra ao ego que é mais fácil, mais seguro livrar-se da chama com a luz ardente. No entanto uma voz sobrenatural de dentro da caveira recomenda que ela fique calma e siga em frente.

É mais fácil jogar a luz fora e ir dormir, é difícil ver nitidamente todos os nossos aspectos e dos outros, tanto os deformados, quanto os divinos, e não fazer nada. Com essa luz é possível ver o coração generoso por trás da má ação, pode-se vislumbrar um espírito delicado esmagado sob o ódio. Essa luz pode discriminar camadas das intenções e das motivações dos outros. Ela pode determinar o consciente e o inconsciente em nós mesmas e nos outros. É o espelho mágico no qual se pergunta tudo. É a profunda natureza. Mas algumas vezes essas informações são dolorosas e quase insuportáveis, pois a caveira aponta para o lugar onde se trama a traição, onde a coragem falta àqueles que dizem o contrário. Ela denuncia a inveja oculta, indica os olhares que são meras máscaras. 

A caveira não é generosa, sua função é a de ter plena visão.

Quando Vasalisa chega em casa a madrasta e as filhas lhe dizem que ficaram sem fogo, sem energia, enquanto ela esteve fora, que não importa o que fizessem não conseguiam acender. É exatamente o que acontece na psique da mulher quando ela está no poder selvagem. Nesse período, tudo o que a oprimia perde a libido. Ela foi totalmente gasta na boa viagem. Sem a libido os aspectos mais desagradáveis da psique, aqueles que exploram a vida criativa da mulher ou que a incentivam a desperdiçar seu tempo com insignificâncias ficam sem mãos. 

A caveira incandescente começa a fitar a madrasta e suas filhas com atenção e elas são reduzidas a cinzas. Uma observação importante aqui: um aspecto negativo da psique pode ser reduzido a cinzas só por ser alvo de observação constante. Quando privamos conscientemente algum aspecto psíquico da seiva, ele murcha e sua energia é liberada ou reformulada. 

Importante: Não podemos manter a conscientização adquirida se convivermos com seres cruéis interna ou externamente. Se estivermos cercados de pessoas que reviram os olhos demonstrando repulsa quando estamos por perto, quando falamos, agimos e reagimos, isso é sinal de que estamos com pessoas que abafam as paixões, as nossas e provavelmente as delas mesmas. A mulher deve escolher seus amigos e companheiros com prudência, pois podem vir a se tornar a madrasta e suas filhas em nossas vidas. 

Um companheiro não pode ser escolhido como um bufê, onde nos exibem o que tem, o que fizeram, não necessariamente o que desejamos. Escolher só porque é apetitoso e está á sua frente não irá satisfazer sua fome do Self da alma. Um companheiro deve ser procurado, talvez por um tempo, até encontrar o que se procura, e deve ser escolhido pelo profundo anseio da alma. Para isso que serve a intuição. Ela é a mensageira da alma. 

Mas não é só para escolhas aparentemente sérias que se usa a intuição. Usa-se também para o que parece banal: dou um passeio ou escrevo um poema?

Um dos aspectos interessantes da natureza instintiva desenvolvida é o surgimento de uma espontaneidade segura. Consegue-se isso calando o ego por algum tempo e deixando falar à vontade aquilo que deseja se expressar. 

Deixar morrer é o tema do final da história. Vasalisa aprendeu a lição. Ela caiu em crise histérica quando a caveira fez arder a madrasta e as filhas? As mulheres perversas que viviam dentro de si mesma? NÃO. O que deve morrer, morre.

Ela sabe quando é a hora da vida de algo e a hora da morte. Podemos tentar nos enganar, mas sabemos. 

Luciana Sereniski
CRP 12/06912

Estudos Junguianos

Lenda Barba Azul e interpretação de Clarissa Èstes

11:35


"Existe uma mecha de barba que fica guardada no convento das freiras brancas nas montanhas distantes. Como chegou até o convento, ninguém sabe. Uns dizem que foram as freiras que enterraram o que sobrou do seu corpo já que ninguém mais se dispunha a nele tocar.

Desconhece-se o motivo pelo qual as freiras iriam guardar uma relíquia dessa natureza, mas é verdade. Uma amiga de uma amiga minha viu com seus próprios olhos. Ela diz que a barba é azul, da cor do índigo para ser exata. É tão azul quanto o gelo escuro no lago, tão azul quanto a sombra de um buraco à noite. Essa barba pertenceu um dia a alguém de quem se dizia ser um mágico fracassado, um homem gigantesco com uma queda pelas mulheres, um homem conhecido pelo nome de Barba-azul.

Dizia-se que ele cortejava três irmãs ao mesmo tempo. As moças tinham, porém, pavor de sua barba com aquele estranho reflexo azul e, por isso, se escondiam quando ele chamava. Num esforço para convencê-las da sua cordialidade, ele as convidou para um passeio na floresta. Chegou conduzindo cavalos enfeitados com sinos e fitas cor-de-carmim. Acomodou as irmãs e a mãe nos cavalos, e partiram a meio-galope floresta adentro. Lá passaram um dia maravilhoso cavalgando, e seus cães corriam a seu lado e à sua frente. Mais tarde, pararam debaixo de uma árvore gigantesca, e o Barba-azul as regalou com histórias e lhes serviu guloseimas.

"Bem, talvez esse Barba-azul não seja um homem tão mau assim", começaram a pensar as irmãs.

Voltaram para casa tagarelando sobre como o dia havia sido interessante e como haviam se divertido. Mesmo assim, as suspeitas e temores das duas irmãs mais velhas voltaram, e elas juraram quem não veriam o Barba-azul de novo. A irmã mais nova, no entanto, achou que, se um homem podia ser tão encantador, talvez ele não fosse tão mau. Quanto mais ela falava consigo mesma, menos assustador ele lhe parecia, e sua barba também parecia menos azul.

Portanto, quando o Barba-azul pediu sua mão em casamento, ela aceitou. Ela havia refletido muito sobre a sua proposta e concluído que ia se casar com um homem muito distinto. Foi assim que se casaram e, em seguida, partiram para seu castelo no bosque.

- Vou precisar viajar por algum tempo - disse ele um dia à mulher. - Convide sua família para vir aqui se quiser. Você pode cavalgar nos bosques, mandar os cozinheiros prepararem um banquete, pode fazer o que quiser, qualquer desejo que seu coração tenha. Para você ver, tome minhas chaves. Pode abrir toda e qualquer porta das despensas, dos cofres, qualquer porta do castelo; mas essa chavinha, a que tem nos altos uns arabescos, você não deve usar.

- Está bem, vou fazer o que você pediu. Parece que está tudo certo. Portanto pode ir, meu querido, não se preocupe e volte logo. - E assim ele partiu, e ela ficou.

Suas irmãs vieram visitá-la e elas sentiam, como todo mundo, muita curiosidade a respeito das instruções do dono da casa quanto ao que deveria ser feito enquanto ele estivesse fora. A jovem esposa falou alegremente.

- Ele disse que podemos fazer o que quisermos e entrar em qualquer aposento que desejarmos, com exceção de um. Só que eu não sei qual é o aposento. Só tenho uma chave e não sei que porta ela abre.

As irmãs resolveram fazer um jogo para ver que chave servia em que porta. O castelo tinha três andares, com cem portas em cada ala, e como havia muitas chaves no chaveiro, elas iam de porta em porta, divertindo-se imensamente ao abrir cada uma delas. Atrás de uma porta, havia uma despensa para mantimentos, atrás de outra, um depósito de dinheiro. Todos os tipos de bens estavam atrás das portas, e tudo parecia maravilhoso o tempo todo. Afinal, depois de verem todas aquelas maravilhas, elas acabaram chegando ao porão e, ao final do corredor, a uma parede fechada.

Ficaram intrigadas com a última chave, a que tinha o pequeno arabesco.

- Talvez essa chave não sirva para abrir nada - Enquanto diziam isso, ouviram um ruído estranho - errrrrrr. - Deram uma espiada na esquina do corredor e - que surpresa! - havia uma pequena porta que acabava de se fechar. Quando tentaram abri-la, ela estava trancada.

- Irmã, irmã, traga sua chave - gritou uma delas - Sem dúvida é essa a porta para aquela chavinha misteriosa.

Sem pestanejar, uma das irmãs pôs a chave na fechadura e a girou. O trinco rangeu, a porta abriu-se, mas lá dentro estava tão escuro que nada se via.

- Irmã, irmã, traga uma vela. - Uma vela foi acesa e mantida no alto um pouco mais para dentro do aposento, e as três mulheres gritaram ao mesmo tempo, porque no quarto havia uma enorme poça de sangue; ossos humanos enegrecidos estavam jogados por toda parte e crânios estavam empilhados nos cantos como pirâmides de maçãs.

Elas fecharam a porta com violência, arrancaram a chave da fechadura e se apoiaram umas nas outras arquejantes, com o peito arfando. Meu Deus! Meu Deus!

A esposa olhou para a chave e viu que ela estava manchada de sangue. Horrorizada, usou a saia para limpá-la, mas o sangue prevaleceu.

- Oh, não! - exclamou. Cada uma das irmãs apanhou a chave minúscula nas mãos e tentou fazer com que voltasse ao que era antes, mas o sangue não saía.

A esposa escondeu a chavinha no bolso e correu para a cozinha. Quando lá chegou, seu vestido branco estava manchado de vermelho do bolso até a bainha, pois a chave verteu lentamente lágrimas de sangue vermelho-escuro.

- Rápido, rápido, dê-me um esfregão de crina - ordenou ela à cozinheira. Esfregou a chave com vigor, mas nada conseguia deter seu sangramento. Da chave minúscula transpirava uma gota após a outra se sangue vermelho.

Ela levou a chave para fora, tirou cinzas do fogão a lenha, cobriu a chave de cinzas e esfregou mais. Colocou-a no calor do fogo para cauterizá-la. Pôs teia de aranha nela para estancar o fluxo, mas nada conseguia deter as lágrimas de sangue.

- Ai, o que vou fazer? - lamentou-se ela. - Já sei, vou guardar a chave. Vou colocá-la no guarda-roupa e fechar a porta. Isso é um pesadelo. Tudo vai dar certo. - E foi o que fez.

O marido chegou de volta exatamente na manhã do dia seguinte e entrou no castelo já procurando pela esposa.

- E então, como foram as coisas enquanto eu estive fora?

- Tudo bem, senhor.

- Como estão minhas dispensas? - trovejou o marido.

- Muito bem, senhor.

- E como estão meus depósitos de dinheiro? - rosnou ele.

- Os depósitos de dinheiro também estão bem, senhor.

- Então, tudo está certo, esposa?

- É, tudo está certo.

- Bem - sussurrou ele - então é melhor devolver minhas chaves.

Com um relancear de olhos, ele percebeu a falta de uma chave.

- Onde está a menorzinha?

- Eu... eu a perdi. É, eu a perdi. Estava passeando a cavalo o chaveiro caiu e eu devo ter perdido uma chave.

- O que você fez com ela, mulher?

- Não... não me lembro.

- Não minta para mim! Diga-me o que fez com aquela chave!

Ele tocou seu rosto como se fosse lhe fazer carinho, mas em vez disso a segurou pelos cabelos.

- Sua traidora! - rosnou, jogando-a no chão. - Você entrou naquele quarto, não entrou?

Ele abriu o guarda-roupa com brutalidade e a pequena chave na prateleira de cima havia sangrado, machado de vermelho todos os belos vestidos de seda que estavam pendurados.

- Chegou a sua vez, minha querida - berrou ele, arrastando-a pelo corredor e pelo porão adentro até pararem diante da terrível porta. O Barba-azul apenas olhou para a porta com seus olhos enfurecidos, e ela se abriu para ele. Ali jaziam os esqueletos de todas as suas esposas anteriores.

- Vai ser agora!!! - rugiu ele, mas ela se agarrou ao batente da porta sem largar, implorando por clemência.

- Por favor, permita que eu me acalme e me prepare para a morte. Conceda-me quinze minutos antes de me tirar a vida para que eu possa me reconciliar com Deus.

- Está bem - rosnou ele - Você tem seus quinze minutos, mas prepare-se.

A esposa correu escada acima até seus aposentos e determinou que suas irmãs fossem para as muralhas do castelo. Ajoelhou-se para rezar, mas, em vez de rezar, gritou para as irmãs.

- Irmãs, irmãs, vocês estão vendo a chegada dos nossos irmãos?

- Não vemos nada, nada na planície nua.

A cada instante ela gritava para as muralhas.

- Irmãs, irmãs, estão vendo nossos irmãos chegando?

- Vemos um redemoinho, talvez um redemoinho de areia bem longe.

Enquanto isso, o Barba-azul esbravejava para que sua esposa descesse até o porão para ser decapitada.

- Irmãs, irmãs! Estão vendo nossos irmãos chegando? - gritou ela mais uma vez.

O Barba-azul berrou novamente pela esposa e veio subindo a escada de pedra com passos pesados.

- Estamos, estamos vendo nossos irmãos - exclamaram as irmãs. - Eles estão aqui e acabaram de entrar no castelo.

O Barba-azul vinha pelo corredor na direção dos aposentos da esposa.

- Vim apanhá-la - gritou ele. Suas passadas eram pesadas; as pedras no piso se soltavam; a areia da argamassa caía esfarinhada no chão.

No instante em que o Barba-azul entrou nos aposentos com as mãos esticadas para agarra-la, seus irmãos chegaram galopando pelo corredor do castelo ainda montados, entrando assim no quarto. Ali eles encurralaram o Barba-azul fazendo com que caísse até a balaustrada. E ali mesmo, com suas espadas, avançaram contra ele, golpeando e cortando, fustigando e retalhando, até derrubá-lo ao chão. Matando-o afinal e deixando para os abutres o que sobrou dele. "

Explicação de Clarissa P. Èstes, livro: Mulheres que correm com os Lobos, sobre o Conto do Barba Azul.

A irmã mais nova, a menos desenvolvida, cumpre o roteiro tipicamente humano da mulher ingênua. Ela será capturada temporariamente pelo seu próprio inimigo interior. Mesmo assim, no final escapará mais sábia, mais forte, e sabendo reconhecer à primeira vista o astucioso predador da sua própria psique.

A história psicológica subjacente ao conto também se aplica à mulher mais velha que ainda não aprendeu perfeitamente a reconhecer o predador inato. Talvez ela tenha dado início ao processo repetidas vezes, mas, por lhe faltarem orientação e apoio, ela ainda não o concluiu.

E por isso que as narrativas míticas são tão construtivas: elas fornecem mapas iniciáticos de tal modo que mesmo uma tarefa que esteja emperrada possa ser terminada. O conto do Barba-azul é útil para todas as mulheres, independente de serem jovens e terem acabado de saber da existência do predador ou de terem sido acossadas e acuadas por ele décadas a fio, encontrando-se, afinal, preparadas para um confronto final e decisivo com ele.

A irmã mais nova representa um potencial criativo dentro da psique. Algum aspecto que está se aproximando de uma vida exuberante e reprodutiva. Ocorre, porém, um desvio quando ela concorda em se tornar presa de um homem perverso em virtude de não estarem intatos seus instintos para perceber e tomar outra decisão.

Do ponto de vista psicológico, as meninas e os meninos são como que dormentes para o fato de que eles próprios possam ser as presas. Embora às vezes nos pareça que a vida seria muito mais fácil e menos dolorida se todos os seres humanos nascessem totalmente em estado de alerta, isso não acontece. Nós todos nascemos anlagen, como o potencial no núcleo de uma célula: em biologia, a Anlage é a parte da célula caracterizada como "aquilo que se tornará". Dentro da Anlage está a substância fundamental que, com o tempo, irá se desenvolver fazendo com que nos tornemos uma pessoa inteira. Portanto, nossas vidas, enquanto mulheres, consistem em acelerar a Anlage. O conto do Barba-azul fala do despertar e da educação desse núcleo psíquico, dessa célula luminosa. Em prol dessa educação, a irmã mais nova concorda em se casar com uma força que ela acredita ser muito distinta. O casamento nos contos de fadas simboliza a procura de um novo status, o desdobramento de uma nova camada da psique.

No entanto, a jovem esposa se iludiu. A princípio, ela sentia medo do Barba-azul. Estava desconfiada. Um pouco de diversão no bosque faz com que ela descarte essa intuição. Quase todas as mulheres já passaram por essa experiência pelo menos uma vez. Consequentemente, ela se convence de que o Barba-azul não é perigoso, mas só excêntrico e cheio de idiossincrasias. Como sou boba! Por que me repugna tanto aquela barbinha azul? Sua natureza selvagem, porém, já farejou a situação e sabe que o homem de barba azul é mortal, enquanto a psique ingênua descarta essa sabedoria interior.

Esse erro de raciocínio é quase rotineiro numa mulher tão jovem cujos sistemas de alarme ainda não estão totalmente desenvolvidos. Ela é como um filhote de lobo, sem mãe, que rola e brinca na clareira, sem perceber o lince de quase 50 quilos que se aproxima vindo das sombras. No caso de uma mulher mais velha que está tão isolada do aspecto selvagem que mal chega a ouvir os avisos do seu íntimo, ela também segue em frente, com um sorriso ingênuo.

Bem que poderíamos nos perguntar se haveria como evitar tudo isso. Como no mundo animal, a menina aprende a ver o predador através dos ensinamentos da mãe e do pai. Sem a amorosa orientação dos pais, ela certamente será uma presa prematura na vida. Em retrospectiva, quase todas nós, pelo menos uma vez na vida, passamos pela experiência de uma ideia irresistível ou de uma pessoa meio deslumbrante entrando pela nossa janela no meio da noite para nos apanhar de surpresa. Mesmo que estejam usando máscaras de esquiar, que tragam uma faca entre os dentes e um saco de dinheiro jogado sobre os ombros, nós ainda assim acreditamos quando eles nos dizem que trabalham no ramo bancário.

Contudo, mesmo com uma criação criteriosa por parte dos pais, a jovem pode, especialmente a partir dos doze anos de idade, ser seduzida de modo a se afastar das suas verdades por grupos de colegas, forças culturais ou pressões psíquicas, começando assim a assumir riscos com bastante imprudência no esforço de descobrir as coisas por si mesma. Ao trabalhar com adolescentes mais velhas que vivem convencidas de que o mundo é bom, sem ao menos elas conseguirem lidar com ele corretamente, sempre me sinto como um velho cão grisalho. Tenho vontade de pôr as patas diante dos olhos e gemer, porque vejo o que elas não veem e sei, especialmente se elas forem determinadas e exuberantes, que elas vão insistir em se envolver com o predador pelo menos uma vez antes que sejam despertadas com um choque.

No início das nossas vidas, nosso ponto de vista feminino é muito ingênuo, o que quer dizer que nossa compreensão emocional do que está oculto é muito tênue.

No entanto, é assim que todas nós começamos. Somos ingênuas e nos convencemos a entrar em situações muito confusas. Não ser iniciada nos detalhes dessas questões significa estar num estágio da nossa vida em que somos propensas a perceber apenas o que está às claras.

Entre os lobos, quando a mãe deixa os filhotes para ir caçar, os pequenos tentam acompanhá-la para fora da toca, pela trilha abaixo. A mãe rosna para eles, investe contra eles e apavora os filhotes até que eles voltem atabalhoadamente para dentro da toca. A mãe sabe que os filhotes ainda não têm condição de pesar e avaliar outras criaturas. Eles não sabem quem é um predador e quem não é. Com o tempo, ela irá ensiná-los, com rigidez e eficácia. À semelhança dos filhotes de lobo, as mulheres precisam de uma iniciação semelhante, que lhes revele que o mundo interior assim como o exterior não são sempre locais propícios. Muitas mulheres não chegam a receber os ensinamentos básicos a respeito de predadores que a mãe loba dá aos filhotes como, por exemplo, se for ameaçador e maior do que você, fuja; se for mais fraco, pense no que quer fazer; se estiver doente, deixe-o em paz; se tiver espinhos, veneno, presas ou garras aguçadas, recue e vá na direção oposta; se tiver um cheiro bom mas estiver cercado de garras de ferro, passe direto.

A irmã mais nova na história não é só ingênua quanto aos seus próprios processos mentais e totalmente ignorante quanto ao aspecto assassino da sua própria psique, mas é também capaz de ser seduzida pelos prazeres do ego. E por que não?

Todas nós queremos tudo maravilhoso. Toda mulher quer montar um cavalo enfeitado com sinos e sair cavalgando pelos campos sem fim e pela floresta sensual.

Todos os seres humanos querem atingir um paraíso prematuro aqui na terra. O problema é que o ser deseja sentir-se fantástico, enquanto um anseio pelo paradisíaco, quando aliado à ingenuidade, não nos deixa realizadas, mas nos transforma, sim, em alvo para o predador.

Essa aceitação do casamento com o monstro é na realidade decidida quando as meninas são muito novas, geralmente antes dos cinco anos de idade. Elas são ensinadas a não enxergar e, em vez disso, a "dourar" todo tipo de esquisitice, quer seja agradável quer não. É em consequência desse treinamento que a irmã mais nova consegue dizer, "Bem, até que a barba dele não é tão azul assim". Esse treinamento básico para que as mulheres "sejam boazinhas" faz com que elas ignorem sua intuição. Nesse sentido, elas de fato recebem lições específicas para que se submetam ao predador. Imaginem uma loba ensinando seus filhotes a "serem bonzinhos" diante de uma doninha enfurecida ou de uma astuciosa cascavel.

No conto, até mesmo a mãe é cúmplice. Ela vai ao piquenique, "acompanha" as filhas no passeio. Ela não diz uma palavra que recomende cautela a qualquer uma das filhas. Seria possível afirmar que a mãe biológica ou a mãe interior está adormecida ou é ela própria ingênua, como ocorre muitas vezes com meninas muito novas ou com mulheres que não foram criadas pela mãe.

É interessante observar que, no conto, as irmãs mais velhas demonstram certa conscientização quando dizem que não gostam do Barba-azul, muito embora ele tenha acabado de lhes proporcionar diversão e atenções num estilo muito romântico e paradisíaco. A história dá a impressão de que alguns aspectos da psique, representados pelas irmãs mais velhas, são um pouco mais desenvolvidos em termos de insight, elas têm algum "conhecimento" que as avisa para não romantizar o predador. A mulher iniciada presta atenção às irmãs mais velhas na psique; elas a protegem do perigo com seus avisos. A mulher não-iniciada não lhes dá atenção; ela ainda está excessivamente identificada com a ingenuidade.

Digamos, por exemplo, que uma mulher ingênua insista em escolher mal seus parceiros. Em algum ponto da sua mente ela sabe que esse modelo de comportamento é infrutífero, que deveria parar e seguir valores diferentes. Muitas vezes ela até sabe como deve prosseguir. No entanto, há algo de irresistível, uma espécie de Barba-azul hipnótico, que faz com que continue seguindo o padrão destrutivo. Na maioria dos casos, a mulher sente que, se apenas se mantiver fiel ao velho modelo um pouco mais, ora, sem dúvida a sensação paradisíaca que procura aparecerá no próximo batimento do seu coração.

Num outro extremo, uma mulher envolvida numa dependência química tem com o máximo de nitidez, no fundo da mente, um conjunto de irmãs mais velhas que lhe dizem, "Não! De jeito nenhum! Isso é ruim para a cabeça e ruim para o corpo. Nós nos recusamos a continuar." No entanto, o desejo de encontrar o paraíso atrai a mulher para o casamento com o Barba-azul, o traficante das viagens psíquicas.

Qualquer que seja o dilema em que se encontre a mulher, as vozes das irmãs mais velhas na sua psique continuam a lhe recomendar consciência e sensatez nas suas escolhas. Elas representam aquelas vozes do fundo da mente que sussurram as verdades que uma mulher pode desejar evitar uma vez que elas acabem com sua fantasia do Paraíso encontrado.

E assim ocorre o casamento fatal, a fusão da doce ingenuidade com a escuridão covarde. Quando o Barba-azul sai em viagem, a jovem não percebe que, embora ele a exorte a fazer tudo o que desejar — com exceção daquela única proibição —, ela está vivendo menos, não mais. Muitas mulheres viveram literalmente o conto do Barba-azul. Elas se casam enquanto ainda são ingênuas a respeito de predadores, e escolhem um parceiro que é destrutivo para com a sua vida. Elas se sentem determinadas a "curar" aquele a quem amam. Estão, sob certo aspecto, "brincando de casinha". Poderíamos dizer que elas passaram muito tempo dizendo que a barba dele afinal não é tão azul assim.

Uma mulher capturada desse modo acaba percebendo que suas esperanças de uma vida razoável para si mesma e para seus filhos diminuem cada vez mais. É de se esperar que ela abra a porta do quarto onde jaz toda a destruição da sua vida. Embora possa ser o parceiro físico da mulher quem a prejudique e arrase sua vida, o predador inato dentro da sua própria psique concorda com isso. Enquanto a mulher for forçada a acreditar que é indefesa e/ou for treinada para não registrar no consciente o que sabe ser verdade, os impulsos e dons femininos da sua psique continuarão a ser erradicados.

Quando uma alma jovem se casa com o predador, ela é capturada ou reprimida durante uma fase da sua vida que deveria ser de desdobramento. Em vez de viver livremente, ela começa a viver falsamente. A promessa enganosa do predador diz que a mulher será rainha de algum modo, quando de fato o que se planeja é seu assassinato. Há uma saída para evitar isso tudo, mas é preciso que se tenha a chave.

Estudos Junguianos

Complexo Materno - Pontos Positivos e Negativos

11:30


Por estar associado à psicopatologia, o complexo, qualquer complexo, carrega uma conotação negativa. No entanto, com um olhar mais amplo pode-se também, encontrar seus aspectos positivos. No caso do complexo materno temos o seguinte:

Quando há uma hipertrofia do instinto maternal, como aspecto negativo, tem-se uma mulher cujos interesses ficam restritos a conceber e parir. A relação com um homem fica em segundo plano, na qual este é apenas um instrumento para a procriação e alguém para ser cuidado junto com as crianças que forem geradas. Se não for apta para gerar filhos, cuidará de parentes, da casa, de animais, enfim, ocupar-se-á dos outros. Sua vida é vivida nos outros e as relações são estabelecidas sob a forma de poder. Por estar identificada com os outros permanece freqüentemente inconsciente de sua personalidade. Quanto mais inconsciente estiver sobre a sua personalidade maior e mais violenta será sua vontade inconsciente de poder.

Outra variedade possível de complexo materno na mulher é o que Jung chamou de exacerbação de Eros. Nesta categoria há uma diminuição importante do instinto materno, levando a filha a uma relação incestuosa com o pai e de repulsa com a mãe, situação que é provocada pela ênfase exagerada sobre a personalidade do outro. Na vida adulta, uma mulher que tenha desenvolvido esse tipo de complexo, tenderá a buscar relações com homens casados, não por eles, mas no sentido de perturbar o casamento. Ao conquistar seu objetivo, por falta de instinto materno, perde o interesse e uma nova busca é iniciada.

A identificação com a mãe é outra possibilidade do complexo materno. Nesse caso, devido a um bloqueio da própria iniciativa do feminino, a filha projeta sua personalidade sobre a mãe em razão de estar inconsciente de seu mundo instintivo materno e de seu eros. A filha tende a supervalorizar e a idealizar a mãe como modelo e, inevitavelmente, passa a experimentar sentimentos de inferioridade. Na vida adulta, são mulheres que vivem uma existência à sombra de alguém, inconscientes de si; no casamento captam as projeções masculinas para a total satisfação do homem em detrimento de suas necessidades pessoais.

Há, ainda, em um estágio intermediário, o que Jung chamou de defesa contra a mãe, isto é, uma defesa contra a supremacia da mãe, na qual, vale qualquer coisa, exceto ser como é a mãe. Esse é um caso típico do complexo materno negativo. A filha luta para não ser como a mãe, no entanto não sabe quem é ela própria e, nesse conflito, permanece inconsciente a respeito de sua própria personalidade. Seus instintos concentram-se na defesa contra a mãe e, desse modo, há prejuízo na construção de uma identidade autêntica e da autonomia. A resistência contra a mãe pode manifestar-se sob a forma de distúrbios da menstruação, dificuldades para engravidar ou repulsa pela gravidez, falta de interesse por tudo o que representa família e convenções. Em contrapartida, há uma compensação desta atitude para um investimento na vida racional, objetivando a criação de um espaço onde a mãe não possa existir, com a ênfase em seus masculinos e na ruptura do poder materno através da intelectualidade.

Conforme mencionado anteriormente, assim como todo o complexo, este também apresenta seus aspectos positivos. No caso da hipertrofia do instinto, o lado positivo do complexo pode expressar-se na forma de amor materno, que carrega força motriz e representa a raiz construtiva da transformação e da capacidade de cuidado consigo mesma e com o outro. Na exacerbação do eros, há a possibilidade de, como elemento perturbador, a mulher possa ser perturbada e, dessa forma, seja transformada, adquirindo consciência de si mesma. Já no tipo de mulher identificada com a mãe, quando desempenhar um papel para o marido (projeção da anima do marido), há a probabilidade de que, extrapolando seu limite, consiga descobrir quem realmente é. Jung afirma que um complexo é superado quando a vida o esgota até o fim.

O perigo do complexo materno ocorre quando a mulher não consegue transformar sua inconsciência em consciência de sua feminilidade e de sua personalidade. Quando uma mulher fica presa na inconsciência, torna-se inimiga do que for desconhecido e ambíguo e tenta organizar sua vida em um plano seguro, objetivo e na clareza de julgamento. Essa atitude fere o mundo instintivo, pois quando nega a mãe, repudia tudo o que está em sua esfera inconsciente. Evidencia-se, então, a importância da relação estabelecida entre mãe e filha na construção da personalidade.

Estudos Junguianos

O desenvolvimento do Ego e as Fases da Vida - Jung

11:30


“Não sou eu que crio a mim mesmo, mas sim aconteço para mim mesmo”
(Jung)

Evolução do ego é a evolução do aspecto do Self que se manifesta no tempo e no espaço. O Self existe a priori e a partir dele o ego se desenvolve. A evolução do ego se dá através das fases da vida. É um desenvolvimento global, no qual não existe uma seqüência rígida dos estágios. A evolução do ego pode ser dividida em três fases: a) Primeira infância e infância; b) Idade adulta; c)Velhice.


**Primeira infância e infância

Nesta fase há uma identidade total, não diferenciada, que começa a se modificar. A identidade ego-Self gradualmente se separa e elementos do meio ambiente interagem para produzir uma primeira personalidade real. Destacam-se seis estágios, que em vários momentos, se sobrepõem:

a)Realidade unitária;

b)De-integração;

c)Dimensão mágica;

d)Experienciar mitológico;

1)Medo

2)Consciência

e) Vida Adulta;

f)Velhice;


Realidade unitária

Primeira infância ocorre logo após o nascimento. A psique da criança opera como uma totalidade relativamente indiferenciada. Não há diferença racionalmente experimentada entre
dentro e fora, entre sujeito e objeto, porque o eu não está presente. É a fase da participação mística, quando a criança atua em estado de unidade com o que está a seu redor, por isso é muito influenciada pelo que o meio é, mais do que pelo que se faz ou se diz. A atmosfera psíquica é parte da criança.


De-integração

Processo que implica na separação da Realidade Unitária, com a finalidade de estabelecer um centro de consciência, um eu. De-integração é uma propriedade espontânea do Self de se dividir formando um eu e propiciando a divisão sujeito-objeto.Os primeiros indícios do eu aparecem por volta de dezoito meses (1 ano e meio). São eles: desenhos de círculos (mandalas), dizer não, dizer eu. O eu, recém surgido, começa pela primeira vez a ter a sensação de si como foco de permanência. Para a criança a mãe atualiza o Self continente.


Dimensão mágica (nascimento - 6/7 anos)

Mãe e criança interagem como se possuíssem uma identidade telepática. É uma fase pré-simbólica, onde não é possível uma compreensão racional. Não há habilidade abstrata. Não há diferenciação entre a imagem e o objeto que ela representa, entre causa e efeito, vontade, responsabilidade e culpa. Existe uma identidade com o meio envolvente, que é poderosamente mágico. A sobrevivência psíquica e física da criança depende totalmente dos pais.

O desenvolvimento do eu ocorre em termos do corpo.


Experienciar mitológico (6/7 anos – 12/14 anos)

Gradualmente a fantasia sai do nível corporal para imagens mais gerais e, então, para conceitos. Aparece a capacidade de distinguir imagens e conceitos dos objetos que eles representam.Os elementos arquetípicos, afetos, pulsões, ameaçadores do ego nascente, ainda frágil, aparecem como bruxas, demônios, monstros, dragões, que precisam ser dominados por figuras heróicas. A figura paterna torna-se mais importante. Há o predomínio do arquétipo paterno, como pulsão para a independência, ordem e disciplina.


Medo

Sensação de inadequação resultante da desproporção entre o pequeno ego e o poder esmagador do mundo mágico que o rodeia, provocando o medo. O medo é uma experiência normal para a criança e não precisa ser combatido, a não ser quando for patologicamente excessivo. O medo do escuro, comum nas crianças, é o medo de ser novamente engolido pelo inconsciente original, já que o inconsciente é a escuridão, assim como o consciente é a luz. O medo existencial, que nunca abandona o indivíduo, é o estímulo para o desenvolvimento psicológico. Com ele se faz oposição ao que é temido.


Consciência

A separação crescente ao inconsciente é sentida como uma quebra à ordem natural. Aparece a possibilidade de escolha individual e escolher significa sacrificar possibilidades.

Escolha --- risco de errar --- culpa

O medo e a culpa naturais na infância são sentimentos que levam ao desenvolvimento do sentido de responsabilidade. O estabelecimento de um padrão interno de certo e errado é fundamental para o desenvolvimento do ego. A consciência racional surge depois dos 14 anos. No início a consciência é idêntica ao código ético coletivo. A consciência mais individual, com julgamentos racionais e questionamento da validade dos padrões coletivos só ocorre na idade adulta. A consciência mais verdadeira, realmente individual, só aparece mais tarde, quando há o confronto entre o ego e o Self.


**Idade adulta

Na vida adulta as coisas e as pessoas não são mais vivenciadas como poderes, mas são apenas pessoas e coisas. O ego com sua racionalidade e controle consciente da vontade é dominante. É a única fonte de poder. É a época do controle monárquico do ego. A conexão com o Self original parece ter se perdido e “deve ser perdida”. O adulto normal acredita ser ele próprio o senhor de seu destino.

O indivíduo tem a ilusão de que pode submeter tudo à sua vontade, pois sem esta ilusão, ele não pode adaptar-se socialmente. O objetivo é satisfazer as suas próprias necessidades de sobrevivência e competitividade, evitar o desprazer, afim de se adaptar ao mundo real. A única realidade psíquica parece ser a experiência subjetiva que o ego tem de si mesmo. A preocupação do ego é com o mundo exterior: o inconsciente compensa isto ao confrontá-lo com a realidade psíquica interior, em termos de projeções. O inconsciente começa a estar em desacordo com o funcionamento consciente.


**Velhice

Fase do retorno. O movimento é em direção à totalidade do indivíduo. Os elementos não racionais pressionam para que haja a integração. O ego tem que se relacionar com o Self novamente, não como uma identidade inconsciente, mas sob a forma de um encontro consciente. A vivência desta fase ocorre quando e ego está forte para encarar o Self. As repressões da primeira metade da vida, que serviram para o desenvolvimento do ego, não podem mais ser mantidas. Surgem as questões: Quem sou eu? Para que estou aqui? Qual o significado da minha existência? Há a necessidade de adaptação ao mundo de dentro, até então, relativamente desconsiderado. Há a confrontação com os limites do ego, até a confrontação com o limite máximo, a morte física. A partir dos 35/40 anos(meia-idade na teoria Junguiana), começam a surgir os primeiros sonhos com a morte, de forma velada, mas como lembrete de que agora tem que ser levada em conta.

Estudos Junguianos

Como tornar nossa Sombra Consciente

11:30


Texto baseado no ensaio de Jung: “O casamento como relacionamento psicológico”


Embora com insight e boa vontade, a sombra possa  até certo ponto ser assimilada pela personalidade, a experiência demonstra que existem determinadas características que oferecem resistência ao controle moral e que se mostram praticamente impossíveis de serem influenciadas e portanto conscientizadas. Embora algumas características da sombra possam ser reconhecidas mais facilmente, algumas são muitos difíceis porque, no caso de uma relação amorosa, a causa da emoção está exatamente nessa outra pessoa. 

Quanto a sombra ainda, ela não comporta apenas aspectos negativos, ela é meramente inferior, primitiva, inadaptada e inábil, mas não completamente má. Contém até mesmo qualidades infantis ou primitivas que vitalizariam e embelezariam a existência humana, mas que são proibidas por convenções. Já se acreditou que a sombra é a origem de todo o mal, mas é possível afirmar que a pessoa inconsciente, ou seja, sua sombra, não consiste apenas de tendências meramente repreensíveis, mas exibe várias qualidades positivas como instintos normais, reações apropriadas, insights realistas, impulsos criativos, etc.

Para assimilá-la, tornar-se mais consciente de quem se é, e de suas capacidades, lembre a pior coisa que você já fez. Pense também naquilo que você gostaria de fazer e que nunca teve coragem, pelo que os outros diriam sobre. Esses são os dois lados da sombra.

Não existe uma técnica formal para assimilação da sombra, é sempre de forma muito individual. Primeiro precisa aceitar a sua existência, as coisas como estão. Existe um lado seu que não se parece nem um pouco com você, pelo menos com o “você” que você gostaria de ser, nem com o “você” que você quer que os outros vejam. Personifique sua sombra, dê-lhe um nome: Pedro, Teresa, qualquer um. Depois você precisa conhecer as qualidades e intenções da sua sombra, qual a aparência dela e o que ela quer. Se consegue isso prestando atenção às suas disposições de ânimo (para onde direciona sua atenção e pelo que se motiva) e suas fantasias. E então conversa com seu Pedro e sua Teresa, para descobrir aonde a energia deles quer ir. É isso que Jung chamava Imaginação Ativa. O processo de chegar a um acordo com o outro que existe em você é digno de mérito, porque através dele passamos a conhecer aspectos da nossa natureza que não gostaríamos que ninguém nos mostrasse e que nós mesmos jamais teríamos admitido possuir. Mas aí é o meu Pedro ou Teresa, fica mais fácil ir assimilando, já que Jung coloca que ninguém é Um Só. Não podemos ignorar o nosso outro lado. 


Um exemplo, mostra na prática como a sombra se apresenta. 


“Quando minha sobrinha se casou , pediram-me que fizesse um brinde à noiva com o usual discurso. Eu gostava do rapaz com quem ela estava se casando, mas não conseguia entender por que ela também gostava. Ela era bastante convencional, e ele era tudo, menos isso. Nunca tivera um emprego fixo, passava o tempo bebendo com os amigos e planejando sua próxima grande jogada. Um grande trapaceiro, é o que ele era. Eu sabia de tudo, mas não podia fazer nada, a escolha era dela.

Estava com meu discurso preparado, eu disse as coisas costumeiras a respeito de quando ela era criança e da moça formidável que era agora. E de repente sem mais nem menos, dei comigo dizendo coisas nada agradáveis a respeito de seu marido. Que ele era um bandido mal disfarçado, um elemento importante do tráfico local de drogas, que seu maior desejo era ter uma esposa com um salário fixo, que ele nunca seria nada na vida, e assim por diante.

Fingi que tudo era uma piada, mas não consegui me sair muito bem. Os pais dela ficaram boquiabertos. Minha sobrinha deixou a coisa passar e seu marido levou a coisa na brincadeira, mas não consegui dormir naquela noite.

Como pude eu, um perfeito cavalheiro, sempre educado e preocupado em fazer a coisa certa, fazer exatamente o oposto? A resposta está na minha sombra. Enquanto eu me preocupo em transmitir uma boa imagem, como faz a maioria, ela não dá a mínima para isso. 

Essa não foi a primeira vez que minha sombra manifestou suas ideias. Num dos meus livros conto como ela despejou uma tigela de salada na cabeça de uma senhora. E outra vez ela falou tudo que queria numa entrevista de emprego. De certa maneira, ela é mais confiável do que eu, pois dois anos depois desse casamento, o marido de minha sobrinha foi embora, deixando-a com um filho, e uma pilha de contas à pagar, inclusive me devendo dinheiro."

Vejam bem. Quando ficamos arrogantes, achando que somos os donos do mundo, a sombra nos traz de volta à terra deixando-nos completamente arrasados. Quanto mais nos orgulhamos de ser civilizados, educados e racionais, mais imperioso se torna o impulso explosivo de dizermos ou fazermos algo que reflita como realmente nos sentimos. Isso é a SOMBRA. Até que a percebamos. À partir daí, quando reconhecemos sua presença, ela se torna um aspecto consciente da nossa personalidade. Isso é assimilar a sombra, fazer com que aquilo que estava no inconsciente se agregue à consciência e de lá desapareça.

Luciana Sereniski
CRP 12/06912